quarta-feira, 14 de julho de 2010

Perdão e esquecimento

Marcela se cansou. Cansou de se sentir triste todos os dias dos últimos meses; cansou de se sentir traída pelos próprios amigos; cansou de achar tantos defeitos em si mesma e em sua vida. Cansou de ser aquela Marcela sofredora, que por fora era um mar de alegria com os amigos, mas que quando se encontrava sozinha na segurança de sua casa, desatava a chorar.
Estava farta de ver todos ao seu redor felizes, e ela estar ficando para trás, afundada naquela melancolia. Marcela queria lutar contra aquela depressão que teimava a prendê-la em sua cama, e a fazia pensar no que fez e no que poderia ter feito, ou ainda, fazia-a pensar em nada. Ela queria tirar toda aquela mágoa e todo aquele sofrimento que habitavam seu coração. Mas isso era querer demais para Marcela. A cada passo que dava na rua, lembrava-se claramente do que a deixava daquele jeito.
Marcela já não tinha mais amor dentro de si. Digo, ela amava sua família e seus amigos,mas não o que havia dentro de si. Já não tinha mais amor por si própria. Já não tinha mais vontade de se cuidar, de ir ao cabeleireiro ou de sair com os amigos. Marcela já não tinha mais vontade de viver.
Passaram-se meses de sofrimento para que Marcela percebesse a que ponto o seu sofrimento a estava carregando. Decidiu que não queria mais viver daquela maneira, quase robótica. Queria acordar pela manhã, dar uma volta na praia e dizer "Mas que dia lindo!", como há tempos não fazia.
Mas é uma pena que às vezes nossos planos não saiam da forma desejada. Isso também costuma acontecer com Marcela, e ela acabou por não conseguir o que queria. Não conseguia nem se levantar da cama! Marcela não podia desistir, depois de ter chegado tão longe, mas também não conseguia perdoar os autores de seus sofrimentos.
De repente, deu-se conta que os agentes da dor nunca chegaram a lhe pedir desculpas ou perdão. E veja bem, caro leitor, desculpas se difere em tudo de perdão. Damos desculpas a um estranho quando esbarramos nele na entrada de uma loja; talvez desculpas não sejam suficiente para o sofrimento de Marcela. O perdão se adequa à situações que envolvam profundo arrependimento e sentimentos dos mais variados.
Marcela acabou por chegar à conclusão de que, se não houve humildade o suficiente para se admitir um erro e pedir perdão, não há motivos para perdoar algo como isso, somado ao erro anterior. Errar é humano, mas paciência tem limites. Marcela já sofreu o suficiente por pessoas que não valeram a pena.
Então, querido leitor, o que fazer numa situação como essas? Esqueceria tanto sofrimento e viveria sua vida normalmente? Afinal de contas, talvez seja por isso que Marcela não segue em frente: é sofrimento demais para ser simplesmente esquecido.

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