quarta-feira, 30 de junho de 2010

Bonecas de tempos

Quando Beatriz era pequena, costumava brincar de bonecas. Tinha de todos os tipos: de Barbie à Polly. Beatriz tinha mãos cheias de amigos. Chamava Fulaninha para o clube no sábado, e ia com Cicrana para o play no domingo. E na segunda, encontrava com seus colegas de classe, os quais eram sempre muito harmoniosos com Beatriz.
Mas o tempo sempre passa, e com Beatriz não foi diferente. De repente, já não brincava mais com sua bonecas, e queria passar todo o seu tempo livre no computador. Já não mantinha as amizades que tivera na infância. Agora Beatriz tinha outros amigos.
Ela e seus amigos iam em grupo para o cinema, soltavam piadinhas uns para os outros e entraram juntos na adolescência. Em um dia frio de inverno, Beatriz se pegou pensando naquele garoto que senta atrás dela na sala de aula, o Gustavo. "Ah, Gustavo", suspirava Beatriz. Sim, ela havia chegado na fase da paixão da adolescência. Toda aquela lábia de Gustavo, aquele cabelo "jogadinho" do jeito que Beatriz gostava. Nossa, Beatriz se encantava com ele.
Quando se deu conta disso, ela quis imediatamente contar para alguém. Sua mãe e sua irmã eram cartas fora do baralho; havia também Luísa que sempre ia à sua casa para ver filmes, mas por algum motivo, Beatriz não quis que ela fosse sua caixa de segredos; pensou em Raquel, mas ela era fofoqueira demais. E à medida que Beatriz pensava nas possíveis pessoas às quais poderia contar, descartava-as na hora. Beatriz se viu sozinha.
E naquela solidão no meio de seus amigos, Beatriz pensou em sua vizinha. Aquela vizinha que sempre ia à sua casa brincar de Barbie. Aquela vizinha, a Laís. Ao pensar nela, Beatriz teve plena convicção de que era à ela que contaria seu mais novo segredo. "Mas e se ela não quiser mais ser minha amiga?" pensou Beatriz. Ponderou bastante quanto àquilo, mas já havia decidido que Laís se encarregaria de levar aquele segredo para o túmulo.
Assim que chegou em casa, Beatriz se dirigiu à porta de entrada de Laís e bateu três vezes. Fosse por destino ou por coincidência, foi Laís quem abriu a porta. Vários segundos se passaram enquanto elas se olhavam. E como um clarão, veio à mente de Beatriz todos os bons momentos que havia passado com Laís, e o quanto ela era importante. Laís a convidou para entrar, ela disse o que tinha ido dizer. Lá, ela passou a tarde e jantou. Riu durante a tarde inteira com sua velha amiga, mas teve a consciência de que não era a mesma coisa.
Beatriz finalmente se deu conta que deveria ter mantido sua amizade com Laís, ao invés de ter começado a sair com outras pessoas e ter esquecido sua grande, velha e boa amiga. Mas não havia mais nada que pudesse ser feito ou dito, já não tinha mais volta.
Para Laís, só restam as boas lembranças; para Beatriz, restam as lembranças e as lamentações por aquilo que não foi feito.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Patriotismo do tipo enganação

Clima de futebol é bom demais, não é? Aquela torcida vibrante, os nossos queridos jogadores em campo, o treinador dando berros que, quando a câmera pega, rimos até não podermos mais, com todos aqueles palavrões. Tudo isso é muito bom.
E aquela velha rivalidade com a nossa vizinha? É muito bom também, principalmente quando você está naquela rodinha de amigos, assistindo ao jogo, ou apenas fingindo, porque quer estar mesmo é com os amigos. Mas fingir? É realmente necessário fingir ser um torcedor nato para se encontrar com os amigos durante a Copa do Mundo?
Veja por exemplo, o meu pai. Ele vibra, xinga, pula, chora. Tudo por instinto brasileiro, por amor ao futebol. Já eu, não xingo, não pulo, nem choro, mas vibro, e acho que isso basta. Já pessoas do meu convívio - as quais, não irei citar os nomes - vibram, xingam, pulam e choram, mas tudo por enganação. Quais seriam os fins lucrativos para matar o patriotismo dessa maneira? Diabos, se você não é patriota, bata no peito e grite "Não sou patriota!". Isso não tomaria tanto do seu tempo.
Mas é claro que os anti-patriotas não farão isso, pois nós, brasileiros, somos vistos como os torcedores mais dedicados à nossa seleção. Além disso, como iríamos nos encontrar com nossos amigos nos dias de jogo? Simples: não encontraria.
É, meu caro(a), o brasileiro é assim mesmo. Maria-vai-com-as-outras. Se um amigo é patriota, todos são. Mas note que se um não for patriota, os outros não agirão como ele, mas o excluirão. Que coisa, ein? É, a sociedade é assim mesmo. Cada um por si, e Deus por todos. Só não se esqueça que o 'cada um por si' equivalirá ao grupo de patriotas.